Um cenário político onde vale tudo

berenicePor Berenice Gomes da Silva *

Um dia, o tema vai se exaurir pela repetição e cansaço que causa aos leitores. É sempre o discurso anti-Sarney e fora Sarney.  O ex Presidente sairá da cena política, pois chegará aos 84 anos. E o que restará à esquerda do Maranhão? Sintomaticamente, os ataques se acentuaram a partir do instante em que o senador fez a opção em apoiar o presidente Lula, esse operário e líder sindical que ousou chegar à Presidência da República e a Presidente Dilma Rousseff, sua sucessora.

É muito evidente o horror que causa à grande mídia a pessoa da Presidenta Dilma. Até mesmo a Copa, que foi motivo de comemoração o Brasil sediá-la, passou a ser um evento negativo para muita gente. Decidisse o senador José Sarney declarar seu apoio ao presidenciável Aécio Neves e todos os seus pecados estariam perdoados.  Relegar Lula ao ostracismo e tentar impor uma derrota ao PT é o grande objetivo de setores da mídia. Comprovadamente, não basta o famoso atestado de bons antecedentes e vida pregressa aos políticos, de atuação mais duvidosa e até mesmo escabrosa. Rompeu com Sarney, corre o risco de ser canonizado.Até os mais duvidosos ou os que dantes foram alvo de ataques de setores progressistas, agora a onda é ser contra o Sarney para parecer bem na fita.

Análise semelhante se encontra na entrevista do escritor Joaquim Haickel ao traçar características de políticos do Maranhão que apóiam o candidato Flávio Dino e Edson Lobão Filho. Quem são os que mudam de lado? Onde estavam? A que grupo pertenciam?  Qual o seu passado?

Agora, o candidato a governador Flávio Dino vem apenas legitimar uma relação que já vinha sendo construída com os tucanos. Após deixar a Magistratura, Dino buscou conversar com o PT, seu antigo partido. Sua opção pelo PC do B, onde teria um espaço sem ter que enfrentar disputas internas, não o impediu de ser acolhido e muito bem acolhido pelos antigos companheiros do PT. Seu nome para disputar a Prefeitura de São Luís havia deixado seqüelas em alguns petistas, como o ex filiado, Bira do Pindaré.

A indicação de Flávio Dino para a presidência da Embratur não se deu apenas pela sua referência no PC do B ou pela sua competência, mas certamente, deu-se, também, pela boa relação com a cúpula do PT nacional, pela sua atuação como parlamentar e jurista.  Mas os sonhos políticos não medem consequências para voos mais altos. E mais uma vez, o PC do B igorou a dialética como método, fazendo uso da forma pragmática ao considerar o projeto local acima do nacional.

 Pela análise da história, não foi a primeira vez. Em 1995, o PC do B apoiou e compôs o Governo Roseana quando a governadora era do PFL, portanto, da base do governo Fernando Henrique. Quando o grupo Sarney rompe com o PSDB, coincide com o momento em que o PC do B faz a ruptura com o grupo Sarney, tornando-se oposição.

A candidatura do PC do B consolida uma aliança com setores mais conservadores com as chamadas “oligarquias” regionais, herdeiros da política patrimonialista em âmbito regional ou local, muitos dos quais que se utilizam do poder para perseguir lideranças progressistas em seus municípios, com o mesmo método de poder de mando com que criticam o grupo Sarney.

Tentam “justificar” e até comparar a adesão do candidato do PC do B ao PSDB, com a aliança que houve no Acre entre o PT e o PSDB. Só esquecem de citar que, no Acre, foi uma aliança contra o tráfico e o crime organizado e aprovada pela direção dos dois partidos. Na realidade, a aproximação entre os neocomunistas e os tucanos têm raízes locais. Querer culpar o PT talvez seja a “desculpa” que interessa ao candidato do PC do B, pois o mesmo nunca explicitou o desejo de querer aliança com o PT. Aliás, quando o grupo do PT bancou a aliança e apresentou Flávio Dino como candidato à prefeitura de São Luís, em 2008, foi com a intenção conjunta de dar prosseguimento à aliança para 2010. Após as eleições, o candidato, talvez, não tenha aceitado a derrota ou talvez tenha tido receio de “compartilhar” com os companheiros que o apoiaram. Mas os companheiros petistas históricos nunca se pautaram em mandatos e muito menos por cargos.

Ao deixar de lado o projeto nacional do qual fez parte até recentemente, o candidato do PC do B joga em todas as frentes, de Aécio Neves a Eduardo Campos, no afã de eleger-se governador do Maranhão. Mais ainda,  dando sustentação ao projeto político de Partidos contrários aos interesses nacionais, como é o caso do PSDB e dos que se mantiveram aliados dos governos Lula e Dilma,  somente no momento em que interessava aos seus projetos locais ou individuais, como é o caso do PSB, de Eduardo Campos e Bira do Pindaré, além  do Solidariedade, do Paulinho da Força Sindical, onde o Dutra foi buscar guarida.

Pelo visto, pouco se fala de programa ou propostas nestas eleições no Maranhão. No lugar de aliança programática, o ódio e o adesismo a personalidades.

Por outro lado, a aliança com o PMDB tem um custo político muito grande. E ela não se sustenta no romantismo, mas na opção daqueles que não abrem mão do projeto que está em curso no Brasil e que tem mudado a vida de milhões de pessoas. Se o PMDB pode ser aliado no plano federal, o PT pode se manter aliado em nível local. Mas as bases para uma aliança política é o programa, são as ideias e propostas.

É claro que temos várias questões de divergência programática com o PMDB. Defendemos um modelo de desenvolvimento com sustentabilidade econômica e social, distribuição de renda e justiça social. Não abrimos mão da participação e do diálogo com a sociedade civil. Esta foi a marca do PT no governo estadual. Mas é preciso ir além do simbólico e avançar em ações concretas, caso contrário não se justifica a reedição de uma aliança. É inadmissível, por exemplo, que o Maranhão, um estado com forte característica rural e agrícola, não tenha um Plano Estadual de Apoio à Agricultura Familiar que inclua a assistência técnica e Extensão rural, como temos o da Segurança Alimentar e Nutricional, resultante da forte atuação e apoio dado ao CONSEA. O PT propôs a criação da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar, em 2010, proposta acatada pela Governadora Roseana, tão logo assumiu o governo, em 2009. A SEDAGRO foi criada nos mesmos moldes do MDA, da estrutura do Governo Federal, mas houve uma reforma unilateral, sem que o PT fosse consultado, o que descaracterizou esta área. Isto enfraqueceu a política de desenvolvimento rural e ainda complicou a área de direitos humanos, com a fusão da SEDES, quebrando, inclusive, a lógica do sistema e da política de Assistência Social. Isto afetou diretamente a relação com os movimentos sociais que vinham dialogando com o Governo, por meio da Vice-Governadoria.

O maior desafio para o PT não será nestas eleições, mas após as mesmas. Construir a unidade interna, sabendo que é na hora da guerra que sabemos quem são os aliados e os adversários. Outro desafio é desconstruirmos a imagem de desgaste que tem o PT do Maranhão, superarmos a disputa entre suas ex-lideranças que foram importantes para o PT, mas já deram a sua contribuição. Isto sim é reinventar a política, ao invés de negá-la ou desconstruí-la. Apostar em novas lideranças, na capacidade dos jovens e das mulheres e sonhar que a reforma política possa motivar as pessoas, assim como a arte, a cultura, o esporte e o lazer. Reinventar é, ao mesmo tempo, despertar nas futuras gerações a credibilidade na política e o prazer de estar nas ruas com as bandeiras nas mãos e o coração vermelho.

* Membro do Diretório Nacional do PT; Bibliotecária, mestre em Sociologia pela UnB; professora universitária.

10 pensou em “Um cenário político onde vale tudo

  1. Perfeita a análise. Atualmente política não se faz mais por convicção política, ou seja, virou tudo “farinha do mesmo saco”. A política se faz simplesmente por poder. Lindo quando a autora diz: “…uma aliança com setores mais conservadores com as chamadas “oligarquias” regionais, herdeiros da política patrimonialista em âmbito regional ou local, muitos dos quais que se utilizam do poder para perseguir lideranças progressistas em seus municípios, com o mesmo método de poder de mando com que criticam o grupo Sarney.”. Enfim, estamos entregues a própria sorte e sem nenhuma opção de mudança de fato. O que já foi o PcdoB um dia?!?!!? A estrada que todos estão traçando é a mesma para chegar na tal sonhada oligarquia Sarney.

  2. O penúltimo parágrafo é revelador da insignificância do PT maranhense no Governo Roseana. Essas pessoas nunca perceberam que a Sala da Casa Grande não lhes permitiu passar da cozinha. Muito triste !

  3. Essa senhora precisa ser melhor informada sobre o PT. Será que ela não sabe que o diretório estadual não decide nada e,está sob intervenção branca à muito tempo. Não existe choque de valores programáticos, como tibiamente ela tenta demonstrar em relação ao PMDB, simplesmente o PT local incorporou os valores (sic) programáticos de seu “aliado” .Os membros desse diretório gostam mesmo e de cargos e vantagens não importando o quanto forem humilhados, veja o caso do vice-governador, sem nenhuma qualificação técnica foi parar no TCE. tudo em nome dos projetos do grupo Sarney. Será que ela citaria um único projeto que o PMDB local abriu mão em favor do aliado PT. Acho que não. A resposta é simples não existe aliança, o que existe é submissão. o PT local foi usado como moeda de troca no plano nacional, queiram o não aceitar. Esse tipo de vale tudo ao qual a autora se refere, não foge muito dos “novos valores” do PT, basta correr os olhos nas alianças feitas pelo país à fora. Querer condenar Flávio Dino por se aliar ao PSDB é no mínimo hipocrisia já que até ontem o grupo Sarnopetista fazia de tudo para trazer o mesmo para o seu lado, ou esqueceram do trabalho massivo do ex-candidato ao governo Luis Fernando junto ao prefeito de Imperatriz e, também junto ao ex-prefeito de são luis João Castelo ?

  4. Meu amigo LEDA, esta senhora, realmente não conhece a realidade local, pra falar tanta asneira: respeito seu curriculo , mas discordo :
    1-O PT DO MARANHÃO EM 2002 DEIXOU DINO PARA APOIAR OS SARNEY, NAQUELA EPOCA LULA DESCIA O PAU NO VELHO E MESMO ASSIM TRAIU SEU POSICIONAMENTO, E OBRIGOU O PT APOIAR A SIAZINHA.
    2- O FLAVIO ESTÁ CERTO DE BUSCAR O APOIO DO PSDB UMA VEZ QUE PT JÁ AFIRMOU QUE MESMO SE DECIDIR O PT NACIONAL VAI OBRIGAR.
    3- TODOS AQUI SABE ,O PESO DO PSDB
    4-O QUE ACHO ESTANHO E COMO O PDT VEM QUERER A QUALQUER CUSTO SER VICE, ISSO NÃO PODE PQ E VOLTAR AOS TEMPOS DO ATRASSO DA IMPOSIÇÃO DA OLIGARQUIA

  5. Se o Sarney decidisse apoiar Aercio ou qualquer outro, seus pecados não estariam perdoados. A decisão do Sarney se daria pelo fato da do PT não ter mais nenhuma chance em ganhar a eleição. Ele não dá ponto sem nó.
    Então quer dizer que foi o apoio de Sarney que elegeu Lula? Elegeu Dilma? Elegeu FHC duas vezes? E a ditadura? Os militares deram o golpe porque tinham o apoio de Sarney?
    Quanto a Flávio, nenhuma novidade. Já teve o voto da Roseana, já bateu em Castelo e até em Jakcson Lago, quem chamou de ficha suja depois de manter seu irmão e seus aliados no governo assim como no governo Dilma.

  6. Pois é professora, a senhora tem razão parcial;porém é que falta liderança competente neste Estado. Ou pelo menos quando tiveram oportunidade para mostra esta virtude não o fizeram e assim tudo continua como dantes na terra de Abrantes.

  7. essa Berenice não sabe de nada Inocente, tem que voltar a sala de aula, e ler mais sobre Maquiavel, Rousseau e Gramsci.

  8. Olá, Berenice! É sempre bom debater com vc, desde os tempos de UFMA!

    Gostaria apenas de esclarecer que, ao contrário do que vc diz, a aliança com Roseana em 1994 não “considerou o projeto local acima do nacional”. Vc se esquece de dizer que não apenas Roseana, mas também Cafeteira e Castelo (adversários de Roseana no segundo turno em 1994 e 1998) eram da base de FHC. Naqueles momentos apoiamos Roseana no segundo turno (Jackson no primeiro) contra a oposição de direita, nucleada por Castelo. Como vc própria atesta em seu artigo, o tempo viria a mostrar que estávamos certos ao considerar Roseana como mais centrista e mais avançada que Castelo. É ou não é?

    Já o PT fez bem diferente: apoiou Roseana CONTRA FLÁVIO. Essa, sim, uma atitude sem coerência. Pois ambos, no plano nacional, compõem a aliança governista. No entanto, quem é mais avançado? O PMDB ou o PCdoB? Seu próprio texto não deixa dúvidas.

    Qto à aliança com PSDB e PSB, não creio que a ampliação da aliança local se dê às custas do apoio a Dilma. Abraços!

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