COLUNA DO SARNEY: A arte de jogar dados

Quando surgiu o jogo? No momento em que surgiu o homem. Os segredos da sorte, o jogo da vida, do corpo, da alma estão no homem.

O mais moderno e excitante é o da Bolsa, caótico, barulhento, histérico, cheio de gestos, telefones e balbúrdia, em que participam visíveis e invisíveis, na mesa de operação e nos mais altos cenáculos de decisões.

Sua invenção cibernética é do século passado e estruturada em avançadas tecnologias de computador e meios de comunicação. É tão sofisticado, porque, jogado no mundo inteiro, caminha com o fuso horário, gira com a Terra e envolve apostas cósmicas e danos fenomenais. Pode ser jogado, também, nos computadores programados para processar variáveis e oportunidades.

Meu avô dizia que os vícios do homem eram cinco: beber, fumar, tomar rapé, jogar e gostar de mulher. Não sei por que testemunhava que já vira pessoas que abandonavam quatro desses prazeres, mas nunca conhecera ninguém que abandonasse o vício de jogar. É o único que não é atingido pelas restrições da idade e da saúde, como os outros.

O Brasil globalizado não escapa da festa. Joga-se na loteria. Joga-se na Dupla Sena, na Mega Sena, na Quina, na Loto, no Bicho, na Loteria, na raspadinha, nos bingos, na televisão, em casa, na rua, no trabalho, em certas igrejas e até na compra de produtos. Se tanto não bastasse, ainda querem abrir os cassinos, como se já não tivéssemos tudo de um grande cassino. Cada jogo tem uma justificativa. “A abertura dos cassinos é necessária para a criação de empregos” (sic!).

O poeta Corrêa de Araújo, grande parnasiano do Maranhão, desenvolveu-me certa vez a teoria de que o jogo do bicho fora inventado por Deus, para acudir a pobreza, e não pelo Barão de Drumond, para ajudar o Zoológico. Assim, o Criador fazia o pobre sonhar, e do sonho vinha o palpite, e do palpite, o ganho que o socorria em dias de dificuldade.

Genolino Amado também contava na Academia o caso de sua empregada que ganhou uma bolada no número 380. E lhe disse que foi Deus que a iluminara. Ao sair de casa, meteu o pé num buraco e imediatamente desvendou o palpite: buraco é zero e ela calçava 38, ficou fácil compor o 380 e acertou no milhar. É o pecado do Santo Nome em vão.

Cervantes, nas Novelas exemplares, conta a história de dois espertos, Cortado e Rincón, que eram exímios na “ciência vilhanesca”, assim chamada porque atribuíam a um desconhecido Vilhán a descoberta do jogo de cartas.

Eram tão hábeis que, em poucos minutos, entre tramoias e habilidades, ganhavam “dois reais e vinte e dois maravedis”. Comparando com o jogo da Bolsa, é um fóssil lúdico, coisa de anjo e cheira a mofo.

Einstein, o homem da relatividade, afirmou, quando descobriu as regras imutáveis das leis físicas que governam o Universo, que “Deus não joga dados”. Pois, hoje, com o mercado financeiro neoliberal globalizado, somente Ele escapa de fazer sua aposta. O vício do jogo serviu nos primórdios para encher o ócio, ocupar o tempo e, agora, é um tormento capaz de destruir economias e nações, com o mais moderno deles, o jogo da especulação financeira, ou melhor, a “ciência soronesca”, de Soros, o filósofo.

É que as leis físicas são imutáveis, ciências exatas. As outras ficam ao sabor da sorte.


7 thoughts on “COLUNA DO SARNEY: A arte de jogar dados

  1. Gilberto, vc ja tentou entrar no site do Castelo? Entre! E veja a brincadeira que fizeram com o Edivaldo. 🙂

  2. Vem cá, me diz uma coisa?, tú já adotou estas crônicas agora todo os Domingos?, não achas demais não, dá publicidade pra essas tolices de Sarney, pq vc não reprisa outros escritores de renome da literatura brasileira, maranhense mesmo, tanto os vivo como os já falecidos. como Ferreira Gulag, Josué Monteles por exemplo?, nos livre desse desprazer, rapaz, faz um favor!

  3. Caro Gilberto!Com referência ao penúltimo pagágrafo do texto do Ilustre Senador
    JOSÉ SARNEY,nada PIOR que as TRAMOIS e CORRUPÇÃO que assola nosso
    PAÍS.Vale lembrar o tal MENSALÃO,conhecida também,como grande organização
    CRIMINOSA para desfalcar os COFRES PÚBLICO. E temos outras :GAUTAMA/
    NAVALHA,RAPINA,CACHOEIRA e tantas outras,é ou não é pior?Será que o Sen.
    não lembrou de umas MÁQUINAS CAÇAS NIQUÉIS,por sinal foi o ESTOPIM da
    CPMI do CACHOEIRA?

  4. Sarney é um sujeito culto, pena que não quer que os outros sejam cultos. Com sua esperteza proporciona ao Maranhão e ao Amapá níveis educacionais baixíssimos, e assim ter muitos ignorantes para manipular e satisfazer seus interesses.

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